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29 de Março de 2020

Múltiplos Gugus

Eudes Quintino de Oliveira Junior, Advogado
há 4 meses

A morte do apresentador Gugu Liberato, em decorrência de um acidente doméstico, causou grande comoção social. Tratava-se de uma figura pública carismática, com o dom de penetrar em todas as classes sociais, sempre levando mensagens positivas e fazendo prevalecer a alegria em seus programas. Se a admiração já era consagrada, ampliou-se, e em muito, a estima popular quando veio a informação que o apresentador, em vida, manifestou sua vontade de ser doador de órgãos post mortem, que foi concretizada pela concordância inequívoca de sua família.

O ato humanitário do apresentador, que excedeu os parâmetros do homo medius, justifica um breve comentário a respeito da doação de órgãos no Brasil.

Tem-se a impressão de que quando vem à baila o assunto doação de órgãos ocorre um ato atentatório contra a pessoa e seu corpo, ferindo a identidade e a dignidade, o que não corresponde à realidade. Sem falar que muitos pensam ainda que podem fazer a doação em vida de seus órgãos, após a morte. Ficou definitivamente descartada a “doação presumida”, que representava a manifestação de vontade da pessoa em doar seus órgãos post mortem, devidamente anotado em sua Carteira de Identidade Civil ou na Carteira Nacional de Habilitação, alterada pela Lei 10.211/2001, como constava no decreto anterior que regulamentava a lei de doação de órgãos. Hoje prevalece unicamente a doação voluntária.

A doação voluntária fica vinculada à vontade da família, que poderá autorizar a retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano, após a morte, para fins de transplante, compreendendo aqui a pessoa do cônjuge, companheiro ou de parente consanguíneo, maior e juridicamente capaz, na linha reta ou colateral, até o segundo grau, materializado na assinatura do Termo de Consentimento Informado. Se se tratar de incapaz falecido, o documento será assinado por ambos os pais, se vivos, ou do detentor do poder familiar exclusivo, da tutela ou curatela.

Tanto é assim que todas as campanhas de incentivo para os doadores orientam a conversa entre os familiares a respeito de eventual doação. É muito mais fácil para o parente decidir, uma vez que ele é o responsável para cumprir a manifestação de vontade do doador.

Pela legislação brasileira somente é permitida a doação de órgãos, tecidos e partes do próprio corpo vivo, feita por quem seja capaz, desde que se trate de órgãos duplos, como os rins ou partes renováveis do corpo humano, que não coloquem em risco a vida ou a integridade física e que também não comprometam as funções vitais do doador. Além disso, por ser uma regra de exceção, a doação para fins terapêuticos ou para transplantes só pode contemplar o cônjuge, parentes consanguíneos até o 4º grau, ou ainda mais excepcionalmente, qualquer outra pessoa, desde que seja mediante autorização judicial. O procedimento será realizado em estabelecimentos de saúde públicos ou privados credenciados, assim como por equipes médicas especializadas. Representa, sem qualquer dúvida, uma grande conquista da humanidade e, a cada passo dado, alargam os horizontes para proporcionar ao homem as melhores condições de saúde e longevidade.

Se o falecido, em vida, deixou transparecer que tinha intenção de fazer a doação de seus órgãos, a decisão fica mais fácil. Os responsáveis pela autorização não se inibirão e, prontamente, assinarão o termo autorizativo. Do contrário, sempre ocorrerá uma junta familiar para decidir a respeito da doação. É sempre um momento difícil porque concorre com o evento morte, em que, por ironia, o paciente ainda registra batimento cardíaco, mesmo com a decretação da morte encefálica. Parece até que seja um apressamento da morte, uma modalidade de eutanásia. Na verdade, é a oportunidade única para se decidir a respeito da doação, pois o paciente já expirou em razão da falência do tronco cerebral. A vida se esvaiu e no leito há um corpo movido a uma propulsão biológica conduzida, por tempo limitado. A morte determina o divórcio inevitável da pessoa e da sua vida biológica. Morre a pessoa, assume o cadáver.

A doação, em sua essência, pode-se dizer que é um ato que transcende a generosidade humana. Descobre-se agora que o corpo humano é um repositório infindável de órgãos, com a possibilidade de doá-los e recebê-los. E, importante, sem conhecer o receptor beneficiado. É um ato de extrema solidariedade revelador de um sentimento humanitário merecedor de todo respeito e admiração.

Assim, com a doação feita pelos familiares, 50 pacientes americanos ganham nova dimensão de vida, com partes do corpo, peças, órgãos e tecidos do Gugu. Há múltiplos Gugus em solo americano.

Eudes Quintino de Oliveira Júnior, Promotor de Justiça aposentado/SP, mestre em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, reitor da Unorp, advogado.

3 Comentários

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Francamente até não me interessei muito pelo texto porque, já tentei pensar em deixar a autorização para doarem os meus órgãos pós morte, mas sinceramente sempre faltou-me o principal, que é a coragem. Quem sabe eu ainda opte para ser um doador. Não sei o limite de idade para tal, mas a saúde ainda esta legal.

Então vou aproveitar o espaço para deixar aqui um texto que escrevi sobre o que sei sobre o ex grande apresentador da nossa TV.

Gugu Liberato foi um lídimo representante da classe dos apresentadores de programas da nossa sofrível Rede de TVs. Um nome que fez história pela correção dos seus atos frente às câmeras. Seu linguajar era escorreito, sem estrangeirismos muitas das vezes desnecessários, Sabia como ninguém tratar um convidado. Nunca, ao menos ao que me lembre, desdenhou de nenhum deles, independente da cor da pele, da religião que professasse, da orientação sexual, do time de preferência, etc. Eram sempre recebidos com a costumeira cordialidade, e com o respeito que cada cidadão ou cidadã, merecem ser recebidos.

Os programas apresentados por ele reuniam a um só tempo: diversão, conhecimento e fatos do cotidiano das pessoas mais comuns. Ele nunca foi, como alguns pseudos apresentadores que, usam dos seus espaços para agirem como "um domador" de circo, onde cada convidado só pode se manifestar, sob os domínios do seu comando. Também nunca agiu como certos apresentadores/entrevistadores que sempre fazem questão de mostrar que sabem mais do que o entrevistado. As suas perguntas eram diretas e objetivas, nada de falácias ou detalhes insignificantes, ou seja: Filigranas utilizadas por alguns, com a finalidade de colocar o entrevistado em saia justa.

Quantas não foram as vezes em que ele se transformava no personagem principal do quadro a ser apresentado, e a sua interpretação não ficava a dever nada a certos atores que, cá entre nós, faziam muito sucesso em virtude de terem um rostinho bonito, mas no quesito talento, sempre deixavam a desejar. Ainda que o Gugu não fosse um exemplar máximo da beleza masculina universal, como um Alan Delon, um Toni Curtis, ou um Brad Pitt, ele sempre nos convenceu pela sua interpretação singela, porem verdadeira. E que pela autenticidade com que entrava no personagem, quando se tratava de um quadro dramático, sempre acabava levando o telespectador às lagrimas, e na comédia, ao riso farto e autêntico.

Nós brasileiros, não temos o hábito de cultuarmos os nossos artistas no conjunto da obra, pelo seu talento, quando estes saem de cena. Os poucos que são cultuados, ou são pelo seu aspecto físico, com destaque para um rostinho bonito, ou pelo seu jeito histriônico de interpretar. Claro que há exceções, mas são raríssimas. O Gugu, pela sua história de mais de quatro décadas trabalhando na TV., e com algumas participações no cinema, sempre manteve um padrão profissional bem acima da média. Tudo que ele criou e apresentou ao seu público, teve a aceitação esperada, não apenas por ele ser simpático ao seu público, mas principalmente pelo ineditismo de seus quadros semanais, e pelo seu talento em apresentá-los.

Quer seja no trato com os seus funcionários, com a sua platéia, ou com os seus convidados, ele sempre se distinguiu dos demais apresentadores, pelo carinho que sempre dispensava a todos eles. Neste quesito ele era considerado, unanimemente, como um gentleman, inclusive pela sua elegância e pelo bom gosto no trajar. Nos três canais de TV. em que trabalhou, permaneceu e saiu sem deixar máculas. Poder-se-ia dizer que na sua arte como apresentador, esta entre os cinco melhores de todos os tempos. Para não cometer injustiça, vou ordená-los por ordem alfabética. Blota Junior, Flávio Cavalcante, Gugu Liberato, Randal Juliano, Silvio Santos. Que cada um enumere de acordo com a sua preferência.

Pense. Qualquer duvida "Não" me ligue. Combinado? continuar lendo

Embaixo da terra órgão só serve às minhocas continuar lendo

Até que idade a pessoa pode ser doadora dos seus órgãos? continuar lendo